Qual o segredo de Irma Vap?

Milton Ayres

 

Tudo começou em 1986 com a peça “O Mistério de Irma Vap”, de Charles Ludlan, dirigida por Marília Pêra e estrelada por Marcos Nanini e Ney Latorraca. Não posso afirmar que foi aí que começou o chamado teatro besteirol no Brasil, mas se foi, certamente a genialidade deste espetáculo não pode ser comparada à mediocridade de seus congêneres mais recentes. Havia o escracho sim, porém as piadas eram mais inteligentes e o humor bem mais refinado. Claro que o desempenho dos ótimos atores era fundamental, mas os figurinos, trocados 56 vezes durante o espetáculo, em intervalos que chegavam a 30 segundos, também eram um show à parte. Impossível deixar de rir. Tamanho sucesso fez com que o espetáculo permanecesse 11 anos em cartaz, viajando por todo o Brasil, e entrasse para o Livro dos Recordes como a peça que ficou mais tempo em cartaz com o mesmo elenco.

 

Para retomar este sucesso e o riso frouxo dos espectadores 20 anos depois de sua estréia, a brilhante diretora Carla Camurati e seus roteiristas precisaram fazer algumas adaptações na história. A linguagem teatral e a agilidade das cenas não poderiam ser reproduzidas na tela grande com o mesmo impacto. Daí a idéia de criar uma história em que a peça original seria montada por um elenco mais jovem, dando novos papéis cômicos aos astros da montagem original. E aqui Marco Nanini deita e rola, usando todo seu talento para interpretar um ator paraplégico (Tony Albuquerque) e sua irmã dominadora (Cleide Albuquerque), deixando em segundo plano os personagens de Ney Latorraca, o produtor da peça (Darci Lopes) e sua mãe (Odete Lopes).

 

As cenas de Cleide são hilárias, quer seja quando ela aparece dando aulas de canto a uma criança sem talento, quer seja quando ela usa de artimanhas femininas para seduzir o jovem ator da nova versão da peça. A caracterização e os trejeitos são tão bons que a gente chega a esquecer de que se trata de um homem interpretando um papel feminino. Em nenhum momento Nanini apelou para o escracho ou para o estereótipo barato na construção de sua personagem. A versão da jovenzinha ingênua e tímida que Thiago Fragoso representa na peça também convence, apesar do rosto masculino sem maquiagem, um recurso proposital para nos fazer rir da indefinição dos sexos. Estes são os maiores trunfos do filme.

 

Outro fato que deve agradar muito aos paulistanos ou habitantes daqui é que a cidade de São Paulo serve de palco para esta história. Um casarão da Avenida Paulista, com aquela cúpula verde em forma de cebola, serve de casa para os irmãos Albuquerque e um belo edifício, provavelmente dos anos 50, localizado ao final do Viaduto Nove de Julho, no centro, é a residência da família Lopes. Entre uma locação e outra, algumas ruas da cidade são percorridas, fazendo com que nos esforcemos para identificar as referências visuais. O resultado de tudo isso é um filme divertido, bem feito e que mexe com nossas memórias, justamente agora em que os anos 80 estão outra vez na moda.